Desvios da Qualidade na coleta de sangue que podem causar danos ao paciente – Parte IV

Desvios da Qualidade na coleta de sangue que podem causar danos ao paciente – Parte IV

Por Beatriz Mª Nogaroli

Voce tem noção do número de punções repetidas no mesmo paciente que ocorrem no seu laboratorio? E reclamações de hematomas? E de pacientes, que retornam após a coleta de sangue com o braço sangrando?  Se a resposta foi NÃO em pelo menos uma  das questões, a punção venosa em seu laboratorio corre o risco de estar causando danos ao paciente e as lideranças não se dão conta disso. Nesse artigo da série vamos avaliar duas situações que se enquadram nos assuntos acima.

5. COLETA DE SANGUE EM LOCAIS ALTERNATIVOS

Todos nós, seres humanos, possuímos a mesma intrincada rede de vasos sanguíneos.  Pequenas variações individuais podem ocorrer no trajeto e no calibre das veias. Elas estão lá, mas em alguns indivíduos mais acima ou abaixo, à esquerda ou à direita, da posição anatômica clássica que aprendemos nos famosos atlas de anatomia. Essas diferenças individuais, para os profissionais menos preparados, pode dificultar o acesso venoso.

Nesse momento, o profissional se vê tentado a buscar a solução imediata, acessando outros locais não convencionais, se desviando de um procedimento padrão e correndo o risco de causar dano ao paciente. Os sítios de coleta universalmente recomendados para a punção venosa segura são as veias mediana e cefálica da região antecubital (face anterior do cotovelo), sendo a terceira opção, mesmo que pouco usual, a veia do dorso da mão.  A razão dessa ordem de escolha é terem grosso calibre, serem de fácil acesso e estarem ancoradas pela musculatura. A natureza é sábia!

Puncionar veias em locais diferentes destes pode sujeitar o paciente ao risco de complicações como lesões nos nervos, artérias, tendões e ossos. Agora pense nessas complicações quando o paciente é um bebê!

A veia basílica, situada na face interna do braço, do punho e pulso; deve ser puncionada em ultimo caso pois está muito próxima a nervos, tendões e artérias. Se ela for a única escolha, a veia deve ser puncionada por profissionais experientes e capacitados. O mesmo se recomenda para outros sítios alternativos.

Independente do local da punção, ao inserir a agulha no paciente, o profissional deve ter conhecimento profundo da anatomia da área a ser puncionada e avaliar os riscos aos quais está expondo o paciente.

6. PRESSA NA HORA DA BANDAGEM

O tempo estimado para uma coleta de sangue é de cerca de 3 minutos.  Tempo estimado quando a veia é de fácil acesso e o profissional é experiente e capacitado. No entanto, a pressão pela agilidade na coleta faz com que a etapa da compressão da veia, a ultima das etapas da punção venosa, seja apressada. Coloca-se a bandagem e o paciente é dispensado, pois a fila tem que andar!

A bandagem não substitui a compressão do local da punção. O padrão do procedimento indica que a bandagem só deve ser colocada após assegurar que não há mais sangramento. Isso significa que precisamos dar atenção ao local de punção. Remover a gaze ou algodão e verificar, primeiro, se há sangramento superficial e segundo, se a coleta foi difícil, a possibilidade de sangramento de profundidade. As vezes temos a falsa impressão de que o sangramento cessou mas ele continua sob a pele, resultando no hematoma.

Uma espiada rápida ao levantar o algodão ou gaze não é suficiente. É preciso observar o local por alguns segundos e ver se ocorre elevação da pele ou formação de mancha escura. Se isso acontecer, é um forte indicio de sangramento interno e uma ação imediata deve ser tomada.

A compressão da veia após a coleta não deve ser subestimada.

Observo, durante meus muitos anos como consultora, que o hematoma é visto como algo “normal” na punção venosa, cuja explicação é “acontece mesmo”. Não se trabalha a prevenção e sim o efeito, que  é muito ruim para o paciente por várias razões: o aspecto roxo do espalhamento do sangue constrange a pessoa, pois leva-se um bom tempo para que a mancha desapareça, além de causar dor no local dado a pressão sobre os nervos da área que pode se prolongar com o processo inflamatório que se instala. Essa pressão, dependendo da extensão, pode acarretar até incapacidade.

Neste ponto, retomo o efeito das redes sociais sobre a imagem do laboratório. Acredito que não fui a única a ter acesso a imagens de braços com diferentes graus de hematoma circulando pelas mídias. “Uma imagem vale por mil palavras”, não é o que se diz?

No laboratorio, nenhuma consequência para o paciente é “simples”. Temos o dever profissional de garantir que nossos processos não causarão danos ao paciente.

Nos dias atuais, um “simples” hematoma pode levar uma empresa ser acionada judicialmente. Pare e pense o que isso representa para o seu laboratório. 

Continuaremos nossa análise sobre outras situações nos próximos textos da série. Se gostou, nos acompanhe.

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